As begônias da janela
Era tudo que ela tinha
Pendiam tão graciosas
Cheias de pouca água e de vida
As rosas eram impossíveis
As rosas se rebelavam
e dentro de casa nao floriam
O coração pendia seco
Esperando o floreio dos dias
Às cadeiras não tinham encosto
A mesa chorava vazia
O pão duro amolecido,
Na água a muito jazia
O sofá todo rasgado
A colcha de piquê escondia
O travesseiro amarelado
O cobertor cheirando a mofo
E os livros de filosofia
O pé da cama quebrado
E os armários vazios
A noite era eterna
E a madrugada não caia
Os armários não se fechavam
O guarda-roupas sofria
As portas que se quebraram
Mostravam que a vida existia
Os espelhos enferrujados
Os olhares não refletiam
Os pés já muito inchados
Do andar, tinham esquecido
E os gritos prisioneiros
A garganta tinha engolido
E as begônias na janela
À muito tinham morrido
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