Mais de meio milhão

 

Perdidos, sozinhos e desesperados

 Milhões assombrados

 pra lá e pra cá


E tão distraídos

 Não vimos o sombrio 

Se aproximar 

 

Mais de quinhentas mil vidas 

Sucumbiram ao destino 

Sem ninguém  avisar


Andando em círculos

Como gado aportado

Perdidos na selva

Sem uma trilha achar

 

De onde saíram estes déspotas malditos? 

Do inferno infinito

Trazendo as mentiras

Destruindo a vida

Celebrando a família

Em um paraíso

Que nunca existiu


São homens vestidos em ternos suados

Costurados às desgraças 

De um povo perdido

Em muitos destroços

De erros sociais   


Sumidos, esquecidos

No banquete divino

Dos intelectuais


E se manifestam 

seguindo a cartilha

Caricatural!


Estavam escondidos

 Salvando pessoas

De forma ilegal


Sem nenhum aviso

 surgiram em triunfo 

Tornando legítimo 

O poder de matar!


Matar muitas mortes

Matar os já mortos

Que sentiam medo de um dia pecar


Pecar o pecado  

E se hoje se morre

Não é novidade

No nosso doce lar 


Voltamos aos quinhentos

Quinhentos são anos

Que vamos lembrar


Que nos descobriram

Rasgaram nossas roupas

E nos ensinaram à comemorar !


  


Todo corpo é um poema


 Cantado em versos e prosa 

Pra alma pura obsessão


Desenvolvido no tempo 

e no espaço 

Preso à gravidade sem fim


Condenado a passar os anos

E  a sentir todas as estações


Subjugado à aparência

E ao valor da cor


Subsidiado à alimentação constante

Dependente de um funcionamento perfeito


Maquina locomotora de mensagens 

Desconhecida engrenagem sem inventor


O corpo traz em si

O sinal de que a vida existe


Vivo, habita

Ocupa, transborda

Sob os ditames alheios

Aos seus


Nunca liberto

Nunca completo

Nunca perfeito

Nunca satisfeito


O corpo, um poema

Aberto em leques


De quilos somados ao tempo

Ditando seu lugar na sociedade

Consumidor de coisas e objetos

Economicamente explorado


Criador de belezas plenas

Gerador de novos corpos

Gerador de doenças incuráveis


O corpo é um poema 

Findável






Festival de Egos

 

Festival de Egos
Cêntricos 

Centrífugos, alienados, enxutos
Na própria concepção da verdade
Núcleo rodeado de admiradores

Triturando inimigos que se atrevem á duvidar
De mim!

Massacrando
Os que não o adoram
Eu, o Ego!

Medido em metros astronômicos 
Maior do que o universo
Que dizem ser infinito

Mais profundo do que 
Os buracos negros
No centro do "Eu universo"

Acorrentado como Prometeu
Vendido como escravo
Submerso no sujo mercado
Da vida, 
Egos!

Rolando àcima e àbaixo
digitalmente expandisos
Artificialmente inteligênte
Ego!


Apreço por mim mesmo
Eterno Narciso
Mostrando-se nas águas
Da vontade e dos impulsos;
Incontroláveis!

Querendo admiradores
Sem fim
A ilusão de que gostam
De mim !
De ti!



  
 

O encontro dos cinco, às cinco

 

Os cinco, se encontraram 
Às cinco!

Os cinco, não se encontraram
No dia
Cinco!

Os cinco esqueceram,
Das cinco?
 
Cinco dedos em cada mão
Cinco dedos em cada pé
Cinco!

Estrela de cinco pontas
Encontro divino dos,
Cinco

Sacerdotes intermediários
Entre o céu e a terra
 Cinco!

Cinco sentidos
Sexto escondido

Pentágonos e Polígonos
Cinco!

Todos os continentes
Cinco!

Cinco somado ao cinco
São dez

Dez repartido em dois
Cinco!

Cinco vezes favela 
Na sessão
Dás cinco 

Os cinco ocupados
Às cinco!

Trabalhando até 
às cinco! 



Poema de número setenta

 

O poema de número setenta

Esta chegando

Cheio de flores coloridas

Cartazes espalhados

Pelas principais avenidas


É O POEMA NÚMERO SETENTA!

Esperado pelo povo

Toma de surpresa os críticos 

Mais não os que pensam

Desintelectuais! 


Antónimo de erudito, culto!

Mentalmente especulativo

Destreza da mente suburbana

Num bairro qualquer escondido


Este é o poema setenta

Com muito mais ritmo

Sem bossa nova

Muito mais simples


O poema de número setenta

Chegou pra mostrar 

Um povo pensativo


Misturado em raças 

Sem outra alternativa 

Corpos que sacodem

Se arrastando dentro da poesia


Corações  latentes

Cheios de energias

Opinião importada de filmes


O poema de número setenta

Anuncia


Uma nova era

desinibida 

Liberdade assexuada

Andrógina, bandida


Fruto de uma sociedade

Ditatorialmente livre! 

  


A religião embriaga

 

A religião embriaga
Aqueles que à Deus
Levam recados

 Que falam direto com Deus
E aos santos somente
Um gole de cachaca

A religião conforta!

Nada é mais protetor
Do que os braços abertos

Inebriam o corpo e a alma
Cantos, pelos anjos soprados 
Gritos de Aleluia!
Mãos ao alto!

O livre servico de doação;
Da mente!

A força perdida
Na fé recuperada

A religião não explica
A religião faz milagres
   
Milagres a gente agradece,
Ajoelhado!

Uma ação invisível
Um dedo apontado

Onipresentemente tudo se modifica,
Salva!

 Tudo é perdoado! 

A religião reúne
Todas as divindades

Normas de moralidade
Sonhos de felicidade
Princípios ditados

Doutrinas escritas em livros sagrados
Cultos elevados!

Protestos ignorados,
Divisão de amigos!

Guerra Santa declarada,
Povos doutrinados!

Homens endeusados  
A religião embriaga,
Até a cachaça! 


Tenho, mais e mais


Tenho mais sapatos e meias do que pés

Mais roupas do que corpo


Tenho mais lençóis do que cama

Mais cobertores do que frio


Mais toalhas do que enxugo

Mais capas de chuva do que chove

 

Cadeiras nas quais não sento

Livros nunca lidos


Óculos que esqueço em todos os lugares


Comida que não cozinho

Bebidas que não bebo


Relógios nos quais não vejo as horas passar.


Tapetes nos quais não piso

Espelhos que não me olho

Pratos nos quais não como

Copos nos quais não bebo


Utensílios que não sei pra que servem


Sacolas que não encho

Bolsas que não uso

Tenho e tenho mais



Mais de meio milhão

  Perdidos, sozinhos e desesperados  Milhões assombrados  pra lá e pra cá E tão  distraídos  Não vimos o sombrio  Se aproximar    Mais de qu...