As vozes dos maridos dizendo, "tchau." a tiravam da cama. O cabelo pixaim despenteado, alto como um cocá de índio, os olhos arremelados, o nariz escorrendo e os dentes precisando escovar. Lá estava ela já correndo pelo quintal.
Enfiando o pé no barro, a blusa rasgada, os lábios e as mãos roxas do frio da manhã. Menina moleque, não gostava de bonecas, não gostava de se pentear.
Curiosa, vivia pelos cantos, ouvindo as conversas dos adultos. Não arredava os pés nem mesmo quando a mãe lhe puxava a orelha ao ponto de arrancar.
Se escondia nas moitas do terreno baldio, caçava tesouros que na verdade eram lixo. A roupa vivia cheia de picão.
O terreno baldio, era o melhor refugio que alguém podia ter. Lá, os amantes se encontravam, os meninos brincavam de guerra, e faziam sua bestial iniciação sexual.
Lá as mulheres jogavam os fetos indesejáveis, os homens estupravam as meninas, os moços se masturbavam. Lá se jogavam sapatos, roupas velhas e brinquedos bons de brincar.
Do quintal ela não gostava muito. Era cheio crianças choronas, casas pobres e pequenas cheias de famílias grandes, que não tinham onde dormir. Assim era a casa dela também. Dormiam quase um encima do outro.
O cheiro de toicinho, infestava o quintal lá pelas onze horas, quando as mulheres depois de lavarem as roupas faziam o almoço. Dedos e unhas deformados pelo trabalho e nos braços a roxidão. Os pés rachados e pretos pela poeira, as sandálias de plásticos faziam lepo, lepo, quando andavam de cá pra lá.
As crianças, se enroscavam nos varais cheios de roupas e viravam cambalhotas na grama onde as mulheres quaravam as roupas.
As brigas entre as mulheres eram diárias e gritaria tomava conta do quintal. Algumas mais histéricas, desmaiavam e as outras corriam com vinagre para que elas pudessem cheirar. Os rádios todos com o som alto se misturavam aos gritos, aos choros e as blasfêmias, que as crianças precisavam escutar.
Uma mãe com a cinta na mão, batia no filho até as marcas ficarem gravadas na pele. Outras mais nervosas, queimavam as crianças com cigarros e lhes colocavam a mão no fogão aceso. As mais ousadas quebravam lhes os braços, ou partiam a cabeça dos filhos com um pedaço de pau.
Quando o dia chegava ao fim as mulheres se modificavam. Corriam para fazer a janta, banhavam as crianças e se trancavam em casa, esperando os maridos chegarem.
Ela se pendurava no portão para ver os maridos voltando do trabalho. Via os descendo a rua, cambaleando, com os cigarros no canto da boca e a garrafa cachaça na mão. Vestiam macacões sujos e cheiravam à bebida e à suor. Passavam por ela, empurravam o portão com força, falavam algum palavrão.
Enquanto a mãe não a alcançava, ela tinha tempo de ver as mulheres apanhar ! Se esgueirava pelos cantos, olhava pelas frechas das porta, escutava os gritos das mulheres e o choro das crianças. Corria, se escondia com medo, quando via os maridos com uma faca na mão.
Horas depois reinava o silêncio e o cheiro de vinagre. As crianças na cozinha, a mulher e o marido no quarto.
Neste momento a mãe estava pronta com os pequenos. Arrastava-a pelos cabelos e entre as cintadas, a colocava no banho. A água quente do banho, queimava as marcas da cinta.
Com o corpo dorido pelas pancadas, o couro cabeludo doído pelos puxões e os ouvidos cheios dos gritos das mulheres, ela via o pai chegar.
O pai chegava com as mãos vazias. A mãe servia um quase jantar. E ela ficava esperando a próxima briga. Esperando a mãe apanhar. Era quase como uma segurança, uma vingança.
Afinal quando chegava o fim dia, todas as mulheres deveriam apanhar!
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