O professor e a democracia



A notícia tinha se espalhado pelo bairro. Total reboliço!  Um dos professores da escola, estava promovendo uma eleição. A informação vazou, quando um dos alunos comentou com os pais, que iria ter uma votação na escola. 

"Como uma votação?" O aluno inocentemente explicou que o professor, estava ensinando o que era democracia. A mãe desesperada contou para uma vizinha, que contou para o marido, que contou para o dono da padaria.

As esposas esperaram os maridos chegarem do trabalho, reuniram uma turma, e foram conversar com o diretor da escola. "O que está acontecendo?" Ninguém queria ver os filhos serem presos e classificados como; Comunistas!

Alguém lembrou que sendo os filhos menores de idade, os pais é que seriam submetidos às torturas. Muitos se lembravam do caso de uma conhecida, que fugiu dos homens de terno e se escondeu na igreja. Uns dias depois, veio a notícia de que a mulher tinha se suicidado. Tinha se jogado da torre da igreja.

Muitos dos adolescentes do bairro, nem sequer sabiam que viviam em uma ditadura. Alguns até mesmo achavam, que os generais comandavam todos os países do mundo.

A tal da eleição, despertou perguntas e questionamentos. Não se podia mais comer o jantar, sem que o moleque ou a menina, perguntassem sobre um carro preto que às vezes circulava pelas ruas.

Do carro desciam homens de terno, que depois de alguns minutos levavam algum vizinho. As mães chamavam os filhos pra dentro, fechavam a porta e espiavam através da janela. Os vizinhos levados, nunca retornavam e ninguém falava no assunto. 

E a vida corria, como toda vida corre de bairro em bairro...

 

Mais o pior ainda estava por vir!

Os alunos incentivados pela tal da democracia, criaram blocos contra e pró eleição. Outros se posicionaram neutral e riam das brigas. Alguém não se sabe quem fez um abaixo-assinado, para que o professor fosse mandado embora.

A escola estava dividida! As turmas andavam pelos corredores colhendo assinaturas. O abaixo-assinado ficou pronto, e momentos antes de ser entregue ao diretor, uma das alunas, depois de conversar com o professor mudou de idéia.

Sem consultar o grupo, picou o abaixo-assinado em pedacinhos. Outra, que de jeito nenhum queria ser chamada de comunista, pegou-a pelos cabelos e se estapeando, rolaram no chão, até os pés do professor, que tinha entrado na classe.

Ele, o professor, que durante toda discussão tinha se mantido em silêncio, e dado as aulas como se nada estivesse acontecendo, separou as meninas e perguntou o que estava acontecendo.

"Ela rasgou o abaixo-assinado." disse uma das alunas.

"Rasguei porque estou arrependida!"

Com calma explicou o professor que aquilo era um exemplo de democracia. Os prós, os contra e os  que tanto fazia.

"Agora, partir para violência; Não!" "Isto não era democrático!"  Todas as partes tinham direito a ser ouvidas. 

Dias depois, uma nova professora chegou de surpresa. Ela entrou na classe, deu a lição, foi embora sem se importar com perguntas.

O professor, tinha desaparecido!

Os boatos rodaram pelo bairro: "Estava preso e torturado!" " Não, tinha se mudado pra Bahia." "Tinha fugido e pedido asilo." "Tinha ingressado numa guerrilha!" 

A vida corria, como toda vida corre de bairro em bairro...

 

 

  

 

  


    

 

 

 


 

 

 

 

  

 

  

 

 

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