Ela nasceu ali ao pé do murro, no quintal ao lado da casa das crianças. Desde cedo ouvia o barulho das meninas correndo e brincando. Curiosa, cresceu o mais rápido que pode.
Cresceu, inclinada para o outro lado do murro, como se estivesse debruçada. Assim podia ver o que acontecia no quintal. As meninas acordavam cedo rindo e passavam o dia brincando. Ela gostava tanto de olhar as brincadeiras, que inclinou-se até quase todos os galhos caírem para o outro lado.
As meninas brincavam de pega, pega, piques, amarelinha, boneca e cavalinho de pau. Montavam casinha na sombra embaixo de seus galhos. E este era o que ela mais gostava.
"Isto é que é vida !" Pensava a árvore. Passarinhos faziam ninho em seus galhos. O sol quente esturricava suas folhas. Na primavera chovia muito e ela gostava do cheiro de terra molhada. As meninas saiam na chuva e chapinhavam com os pés as poças d`agua.
A laranjeira dormia tranquila e feliz. Durante o inverno as meninas recolhiam se cedo. Através da janela ela via as meninas sentadas no sofá. Um cheiro delicioso invadia a vizinhança.
A laranjeira não sabia que tinha uma dona, até o dia em que ouviu uma voz. A voz vinha do lado do muro onde sua raiz estava enfincada. Determinada a mulher pedia ao marido para podar a árvore.
"Eu quero que você corte, principalmente este galhos, que estão caindo pro outro lado do muro." A laranjeira levou um susto. "Já estava na hora desta laranjeiras dá frutos." Replicou o marido. Antes que a laranjeira reagisse o homem começou à corta os galhos.
A laranjeira nunca tinha sentido, uma dor tão forte em toda sua breve vida. O marido jogava os galhos cortados e a mulher recolhia. Inocente viu a laranjeira seus galhos reduzir-se e ela mal conseguia inclinar-se sobre o muro.
Os dias depois da poda, foram os mais longos e tristes de sua vida. Ela ouvia as meninas, mais não podia vê-las. Alguns meses depois já com os galhos crescido, viu a laranjeira que dela saiam pequenos frutos.
Aquele foram os dias da mais completa felicidade. Assistindo as brincadeiras a laranjeira produzia frutos. Quando os frutos amadureceram, experimentou a laranjeira pela primeira vez em sua vida, o que era um toque.
As meninas empolgadas pela novidade começaram à colher seus frutos. A laranjeira pensava que aquelas mãozinhas eram magicas. As meninas colhiam, abriam os frutos com a mão e comiam satisfeitas. "Isto é que é vida!" Suspirou a laranjeira.
Mais o que ela não sabia, era que sua dona não estava gostando nada daquela história. Ao ver as mãozinhas nos galhos começou a gritar escandalosa. "Pega, pega ladrão de laranja!" As meninas assustadas correram para casa.
Naquela mesma noite sua dona e o marido foram conversar com os pais das meninas. A laranjeira ouviu a conversa e ficou com muito medo. Dias depois as meninas esquecida colheram laranja novamente. A dona da laranjeira espumando de raiva exigia uma solução do marido.
No outro dia pela manhã veio o marido com uma corda, amarrou a laranjeira e puxou-a para o seu lado do muro. "Injusto !" Ela forçou tanto, que a corda acabou se arrebentando. Sua dona furiosa, pegou uma escada, subiu no muro e começou a berrar para a vizinha. "Suas filhas mortas de fome estão roubando as minhas laranjas!"
A mãe das meninas, chateada disse. "Minhas filhas não são ladras e nem mortas de fome." " Quem mandou a sua laranjeira pender para este lado" A dona da laranjeira, então começou a berrar pelo marido.
Ele cansado da história da laranjeira que pendia para o quintal da vizinha, pegou uma foice e veio bufando. Subiu a escada e começou a cortar os galhos. Mas sua esposa disse : "Os galhos vão crescer de novo e eles vão roubar as minhas laranjas"
O marido ficou mais furioso e começou a cortar o tronco. Cortou, cortou e cortou até que só sobrou um pequeno toco. Depois pegou todos os galhos, separou as frutas, deu para a mulher e jogou o restante no lixo. As meninas, assustadas, assistiram quietas a cena maldita. E assim ele matou a laranjeira, cujo o único pecado foi querer ver o que acontecia no quintal ao lado.
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