Nascida lá nos cafundós do Judas. Lá depois que o diabo perdeu as botas, assim descrevia sua mãe, a cidade, de onde vinham. Cinco filhos, quatro meninas e um menino. Se não estava embriagada, estava embriagando-se. Na pequena casa construída de papelão e madeira, tudo faltava menos a embriaguez diária.
A embriaguez era o bálsamo e o amor do casal. Amor explicito presenciado pelas crianças. Acordava tonta num misto de prazer e sobriedade. A sobriedade, durava até ela passar em frente ao boteco, só com a intenção de falar um alô.
A freguesia convidava, a conta aumentava, o dono do boteco reclamava, mais o copo sempre sobrava na mão. As crianças esquecidas, se misturam com as outras que corriam e levantavam poeira.
Famintas e sozinhas, assistiam à velha tv, até tarde. O jantar viria depois da chegada do padrasto, que só bebia nos finais de semana. O jantar era só paras meninas, porque o menino não era filho dele.
Humilhado e faminto, o pobre ficava num canto, vendo o padrasto comer com as irmãs. A mãe voltava para casa cambaleando, falando consigo mesma, cantando. A avó também embriagada, insistia que a filha deveria parar de beber.
Um dia uma vizinha veio correndo e gritando, entrou pela porta adentro e disse: "Sua mulher caiu na rua e quebrou a cabeça" Sem saber exatamente se tinha entendido a notícia, correu com as crianças para a rua e só viu o sangue que escorria.
No Pronto Socorro da Prefeitura a mulher morreu. Destino maldito, tragédia esperada, abraçou a mulher que tinha deixado uma parte dos miolos na calçada. Quando o enterro já estava adiantado, ele lembrou-se da sogra.
Uma vizinha correu até o bar e deu a notícia. A velha desceu um ou dois copos à mais, e foi para a casa da filha. Chorando e gritando dizia: "Que tragédia meu Deus, que tragédia!"
Quando chegou à casa da filha abraçou-a ao caixão. Bêbada balançava o caixão pra lá e pra cá. O caixão barato, colocado sobre improvisados pés, caiu e se abriu. O povo na tentativa de apartar a mãe da filha, bateu nas velas e o fogo se espalhou.
O fogo consumiu o barraco, mais o povo conseguiu salvar o corpo e o caixão. Com a cabeça quebrada e no caixão queimado, ela deu adeus. E no boteco à tarde quando a freguesia se juntava, alguém sempre se lembra: "A diaba morreu foi duas vezes, primeiro quebrou a cabeça e depois queimada!"
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