Chuuuuuuuuuuuu de avião



A cidadezinha quase perdida no sertão tinha somente duas ruas. O resto era só cana. O cheiro doce, do canavial misturado com alguma coisa que ela não conseguia definir, invadia as narinas.

 Não havia ninguém que não trabalhasse no canavial. Quase todos cortadores de cana. O sol era de estorricar. Como aqueles homens conseguiam trabalhar naquele calor de matar, ela não entendia.

 Perto do meio dia tudo fechava. O comércio se resumia a dois bazares e uma padaria. Os moradores se refugiavam em casa. Uns dormiam na rede, outros nas cadeiras de balanço.

Dormiam até quase às duas da tarde. O calor e o sol davam mesmo uma moleza quase que incontrolada. Os olhos fechavam sem querer.

Uma manhã, o avó paterno veio buscá-la para dar uma volta na cidade. Queria apresenta-la aos amigos. Saíram caminhando pelas ruas sem asfalto. Ele também cortador de cana tinha uma incompreensível energia apesar dos oitenta anos.

Para ela, ele não andava, corria. Andava, falava, perguntava. "Como era cidade em que ela morava ?" "Onde é que o povo trabalhava" "Lá tem cana?"

Ela tentava responder, como podia. Era a primeira vez que o encontrava. "Sua vó mãe da sua mãe disse, que você veio foi de avião!"  "Aquele negoção grande voa!"

 A medida que andavam ia encontrando os amigos. Uma mulher com trouxa de roupas na cabeça, ia lavar roupa no rio que praticamente não tinha água. Ele interpelou a mulher e disse: "Tu sabe quem é essa menina?" A mulher olhou surpresa e muda. "Sabe não, sabe não"  "É minha neta, que mora numa cidade grande."

"Sabe como ela veio?" "Não, tu não sabe não." "Ela veio foi chuuuuuuuuuuu  de avião."  Mostrava ele com os braços. A mulher não respondeu nada, balançou a cabeça com dificuldade por causa da trouxa de roupa e seguiu seu caminho. "Não te apoquente não, o povo aqui é tudo bicho do mato"

Continuaram andando, até encontrar outro amigo. Novamente fez ele a mesma pergunta. "Tu sabe quem é essa menina?"  "Não, tu não sabe não." "Ela é minha neta que mora na cidade grande." "Sabe como é que ela veio?" "Não, tu não sabe não." "Ela veio foi chuuuuuuuu de avião."

"Veio só pra me ver, eu sou o avó dela" "Chuuuuuuuu de avião"

Andaram quase toda manhã. Ele a apresentou para o dono da padaria, para os poucos fregueses e para o único carteiro. Foram aos dois bazares e até a estação de radio.

Só não entrou na prefeitura, porque ficou indeciso se encontraria o Prefeito. Nunca tinha falado com o Prefeito. Mais tinha feito sua parte e votado. Orgulhoso, alegre como um menino de oito anos, mostrou a neta para cidade. A neta tinha vindo só para visita-lo. A neta que veio chuuuuuuuu de avião.         

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