A mãe as vezes não sabia o que fazer com as duas meninas. Tinham vindo sob encomenda. Não havia nada que prendesse a atenção delas mais do que dois minutos. Estavam sempre pulando, correndo ou fazendo traquinadas. A mãe nervosa, batia de cinta, puxa as orelhas, pegava pelos cabelos. Mas tudo parecia em vão, logo que a dor do castigo passada voltavam à aprontar. Algumas vezes ficavam por ali ao redor dos adultos ouvindo conversas e tirando suas próprias conclusões. Um dia a filha da vizinha que andava as voltas com o primeiro namorado firme, comentou para a mãe delas que a sogra não era lá muito simpática. Mal falava com ela, e as vezes até soltava alguma pilhérias. A mãe que era sensata disse para a moca não se incomodar, que toda sogra no começo era assim mesmo. Mais elas, elas não pensavam assim. Como é que esta tal de sogra podia não ser simpática com a filha da vizinha. Uma moça tão bonita, tão meiga, boazinha que até brincava com elas as vezes. Alguns dias depois, mês de Junho a vizinhança faria a festa de São João. Era tradição comemorarem juntos no grande quintal na frente das casas. A moça na tentativa de ser simpática, tinha convidado a sogra para festa. Quem sabe ela ficaria mais amena depois da grande festa e de conhecer toda a família. Chegado o dia todos trabalhavam na preparação da festa. Os homens montavam a fogueira, preparavam os fogos, as mulheres cozinhavam, curau, pamonha, pinhão, bolos, batata doce, milho cozido, milho para assar na fogueira, quentão e pipoca. Tudo muito gostoso! A mistura de cheiros tomava conta do ar e tudo respirava alegria. As crianças ajudavam a pendurar as bandeirinhas, encher os balões, buscar as cadeiras nas cozinhas. As duas traquinas não paravam, corriam, pulavam, colavam bandeirinhas, enchiam balões, iam até a cozinha beliscavam as comidas, mostravam a língua para o filho da vizinha e na hora de buscar as cadeiras ... As duas tiveram logo uma ideia para ajudar a moça maltratada pela sogra. No fundo do quintal, a mãe tinha guardada uma cadeira, não muito velha, mas que estava com a trava das pernas solta. O pai tinha tentado consertar, colar a trava, mas a trava soltava todas as vezes que alguém se sentava. Para evitar acidentes a cadeira foi colocada de lado. As duas não tiveram dúvida. Pegaram a cadeira, colocaram a trava direitinho e levaram para o grande quintal. Passaram a tarde vigiando a cadeira para que ninguém se sentasse e caísse. À noite quando a festa começou, as duas se revezavam na cadeira sentando com muito cuidado. Quando "a velha", quer dizer a sogra chegou, a moça cheia de mesuras convidou-a a se sentar. As duas meninas muito educadas foram logo oferecendo lugar: "Senta aqui dona, a cadeira tá vazia". A senhora se sentou e a moça perguntou o que ela queria. "Pipoca, eu adoro uma pipoquinha" A moça correu pra buscar a pipoca e voltou com uma bacia cheia de pipoca pra agradar a sogrinha. A sogra colocou a bacia no colo, comia pipoca e acompanhava o ritmo da música que corria solta. As crianças brincavam de pega pega, os homens tomavam quentão, as mulheres dançavam e conversam, tudo era puro barulho. De repente ... tudo parou. O barulho cessou. As crianças olharam, os homens olharam, as mulheres olharam e viram que no canto do quintal caída, estava a sogra. A cadeira abriu as quatro pernas de uma vez, a velha foi ao chão e só teve tempo de dizer "virgem". A Maria ela já estava no chão. A bacia de pipoca pulou do colo pro peito e lá estava ela caída, cheia de pipoca e sal. Depois do susto alguns foram ajudar a senhora, outros tentavam conter a risada. Algumas crianças não se conteram e caíram na gargalhada. As mães davam tapas nas cabeças dos filhos pedindo para que parassem, mas elas mesmas queriam era gargalhar. A moça desapontada, cheia de vergonha, ajudava o namorado à ajudar a mãe. As duas traquinas ... felizes, diziam: "Olha a mulher pipoca!" A mãe logo entendeu o ocorrido. Pegou as duas pelo braço e foi logo passando o corretivo. Aos sopapos, as duas foram para dentro. Para elas a festa de São João tinha acabado, nada de balão, nada de fogueira, as duas tinham passado dos limites. Uns dias depois, conversando com a filha da vizinha a mãe disse: "Que foi engraçado foi" "A velha lá caída cheia de pipoca". mas não disse nada de que aquilo era obra da meninas traquinas.
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