O Soldado Solidário


 

Contam que ele era boêmio desde adolescente. Ou melhor,  nasceu boêmio e boêmio morreu. Com 18 anos foi servir o exército.

"Ficar preso no quartel, não era coisa de gente." Dizia ele. Como sabia dirigir, logo arranjou um jeito de guiar o caminhão da companhia. Buscava a comida dos soldados no Armazém Geral do Exercito. Na volta parava num botequinho, pedia uma branquinha, quem ninguém é de ferro, "Dirigir sem nada, naquele calor danado!"

Um dia, com caminhão cheio de sacas de feijão, farinha e batatas, parou no boteco pra tomar "uma". Sentado num banquinho, na sombra do lado de fora do bar, ficou olhando as pessoas que passavam.

Aquilo era uma procissão de esfarrapados. Mulher magra com trouxa de roupa na cabeça indo pro rio. Homem magro, sujo, com facão da cortar cana na mão. Criança magra e barriguda. Todos tão magros, com olhos perdidos. Aquilo era o retrato da fome.

O sol quente, quase 40 graus. "Como é que um povo podia viver deste jeito?"  Aquele era o povo dele. Ele, próprio e sua família moravam no povoado. Enquanto olhava, teve uma idéia, um clarão. 

"O povo vota no governo, pro governo ajudar o povo" "As coisas do governo são públicas e públicas significa que são do povo." Num repente, subiu na carroceria do caminhão, abriu umas das sacas e começou a gritar que o governo estava distribuindo comida grátis.

Aquilo foi um reboliço, veio gente de tudo quanto é canto. Com cumbuca, panela, gamela, o povo recebeu, feijão, batata e farinha. Não distribuiu tudo porque os soldados também precisavam comer.

Quando voltou ao quartel, estacionou o caminhão e não disse nada. O encarregado da cozinha contou as sacas e disse:

Tá faltando um montão de sacas

- É mesmo, é

Cadê as outras sacas?

- Eu dei pro povo.

- Que povo, soldado?

- O povo lá da cidade.

- Você sabia eles estão morrendo de fome?

- Deixa de brincadeira, soldado

- mentindo não, eu dei comida pro povo. A comida não é tua, é do governo.

O encarregado da cozinha, chamou o sargento que ouvindo a história, chamou o capitão, que ouviu o soldado insistir na mesma coisa. "A comida é do governo, portanto é do povo"

O capitão não quis ouvir mais nada. Mandou o soldado direto para prisão. A solidariedade lhe rendeu um mês atrás das grades, e nunca mais pode dirigir o caminhão.

O soldado solidário e boêmio saiu do exercito e a história se repetia. Se tinha algo dividia. O álcool consumiu seu fígado e sua vida.

Contam que internado por conta da cirrose, fugiu do hospital para brincar o carnaval. Queria ir ao baile. Pensava que a coisa devia estar fervendo. Pulou a janela e ficou desaparecido três dias.

Na quarta-feira de cinzas foi encontrado de pijama com uma toalha no pescoço. Se chegou ao baile ninguém sabia. Morreu como tinha vivido a vida 

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